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[RESUMO] O avanço das ‘mortes por desespero’ mostra que não basta medir o sucesso de um país pelo que ele produz: é preciso olhar para o que sustenta vidas com propósito. Sociedades moldadas pelo mercado desregulado, pelo isolamento e pela lógica da eficiência sem acolhimento se tornam férteis para o adoecimento e para a perda de vínculos que garantem saúde e pertencimento.
Quando a vida perde o fio do sentido, até um simples resfriado pode derrubar. Não é exagero poético, é uma descrição precisa do que acontece quando o organismo psíquico se vê sem horizonte, sem pertencimento, sem uma razão que amarre as horas do dia.
Longe de um misticismo nebuloso, essa “tarefa” é o nome clássico de uma experiência cotidiana, a sensação de ter valor para alguém, de que o esforço tem direção, de que o mundo ainda nos pede algo. Quando esse chamado some, o corpo registra, a imunidade cede, a mente fecha e ficamos “bloqueados”. O destino de pessoas e de sociedades muda quando o sentido deixa de existir.
É aí que entra um termo incômodo, nascido do esforço de dois economistas, Anne Case e Angus Deaton: “mortes por desespero”. A expressão reúne três causas de morte que se expandiram em certas populações ao longo das últimas décadas: suicídio, overdose de drogas e doenças hepáticas relacionadas ao álcool.
Por trás dos números o desenho social de isolamento, perda de propósito, empregos que somem, comunidades que se desfazem, dor crônica tratada como mercadoria. O fenômeno foi fotografado com nitidez em partes dos Estados Unidos. Mas não se trata de um destino americano, é um alerta universal. Quando vínculos esgarçam e perspectivas encolhem, a curva do desespero sobe. E desespero não é só um afeto, é uma política do corpo.
A literatura de saúde pública insiste que o sentido é também um determinante social. Não basta aconselhar resiliência individual quando as estruturas que sustentam a vida comum —trabalho digno, moradia, transporte, escola, cuidado— estão corroídas.
O peso do vazio não se mede apenas na cabeça, mas no quarteirão, no comércio que fechou, no posto de trabalho que migrou, na família que se dispersou. Há estudos associando solidão prolongada a riscos de adoecimento. Há mapas que mostram picos de overdoses coincidindo com regiões de desocupação laboral e digna.
Esse pano de fundo ajuda a entender a crítica ao chamado “neoliberalismo”, a austeridade que corta a proteção social, a ênfase no indivíduo como solução, a crença de que o mercado organizará de forma espontânea o bem-estar coletivo.
Não se trata de eleger um culpado único —crises têm múltiplas causas, da inovação tecnológica aos choques geopolíticos—, mas de notar um padrão, quando políticas públicas passam a tratar a segurança econômica, a saúde, a educação e o cuidado como linhas de custo a serem comprimidas, a conta aparece em outro lugar.
Aparece na sobrecarga das famílias, na precarização silenciosa de territórios, na medicalização do sofrimento social, na anestesia como resposta. A retórica da meritocracia sem freios é psicologicamente tóxica porque produz um tipo de vergonha que isola. E isolamento é adubo para o desespero.
O caso americano é didático. Durante anos, o receituário conhecido como “Consenso de Washington” —abertura comercial irrestrita, desregulamentação ampla, proteção social mínima— foi vendido como sinônimo de modernização. A história recente expôs seus limites, a competição global desestruturou regiões industriais sem que viessem, na mesma velocidade, alternativas de trabalho qualificado.
Sistemas locais de saúde e educação ficaram à míngua, o crédito barato mascarou vulnerabilidades, a promoção agressiva de opióides por parte de empresas farmacêuticas encontrou uma população exausta e sem rede de apoio, e a regulação chegou tarde.
Não é coincidência que o país tenha assistido, antes mesmo da pandemia, a uma estagnação inédita da expectativa de vida e a um debate emergente, inclusive no centro do poder, sobre a necessidade de políticas industriais, investimento em infraestrutura, agenda de saúde mental e reconstrução de redes comunitárias. O “sonho americano” envelheceu quando deixou de prometer pertencimento e mobilidade para todos, e passou a entregar uma corrida solitária onde poucos vencem e muitos assistem da arquibancada.
Dizer que “a matéria ganhou primazia sobre a alma” não é uma oposição simplista entre economia má e espiritualidade boa. É uma constatação sobre prioridades, quando o preço vira a linguagem, perde estatuto de valor. O resultado é uma sociedade eficiente para produzir coisas e inábil para acolher pessoas. E, no entanto, não há contradição entre prosperidade e sentido, há desordem de metas.
O desafio é civilizatório, alinhar incentivos econômicos a finalidades humanas. Isso significa cinco linhas de ação que cabem na pauta pública e na vida miúda: políticas de emprego que recompensem o trabalho decente; um sistema de saúde que integre cuidado mental desde a atenção primária; regulação e responsabilidade corporativa em mercados que lidam com dor e dependência; investimento em educação continuada e requalificação que devolvam horizonte a trabalhadores em transição; e, por fim, uma agenda de convivência que trate a solidão como problema público, promovendo espaços, tempos e serviços que refaçam comunidade.
Há quem diga que isso é pedir demais a governos e políticas. Talvez seja pedir o mínimo, que a organização da vida coletiva devolva às pessoas a chance de ter uma tarefa que valha a pena. O resto — família, fé, arte, amizade — floresce melhor em terreno fértil. A perspectiva da psicologia junguiana ajuda porque lembra que sentido não é luxo terapêutico, é condição de saúde. E a experiência econômica ensina que crescimento sem vínculos é areia movediça. Um país que mede apenas o que produz, e não o que sustenta, acabará rico de cifras e pobre de tempo, de cuidado, de futuro.
Se existe uma lição das “mortes por desespero”, é esta: não basta salvar indivíduos de seus próprios abismos, é preciso desativar os abismos. Não por piedade, mas por inteligência cívica. Uma sociedade que se protege é uma sociedade que se projeta. Reordenar prioridades não é romper com a modernidade, é terminá-la, precisamos colocar a técnica a serviço da vida e não o contrário.
Recuperar a “tarefa”, o chamado que nos preserva, é trabalho de todos, do Estado que ampara, do mercado que reconhece limites, das comunidades que voltam a se olhar, das pessoas que reencontram utilidade, beleza e responsabilidade no que fazem. Quando o sentido volta a circular, o corpo social respira. E, respirando, lembra que o sucesso de uma nação não é apenas produzir mais, é perder menos gente para o silêncio.
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Fonte: Folha de São Paulo


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