Mulher branca é a grande vencedora das últimas décadas – 18/11/2025 – Michael França

[ad_1]

Se considerarmos vencer como avanços na renda, é razoável dizer que sim, que elas, as brancas, foram as grandes vencedoras das últimas décadas. No livro Números da Discriminação Racial, mostramos que, em 1982, elas recebiam cerca de 55% da renda dos homens brancos e que, ao longo de quarenta anos, houve uma convergência progressiva. Em 2020, as brancas alcançaram aproximadamente 77% da renda dos homens brancos, refletindo ganhos de renda substanciais e contínuos.

Os homens negros partiram de um patamar atrás delas, ou seja, com 50% da renda dos homens brancos em 1982, atingindo 57% em 2020. As mulheres negras, por sua vez, foram o grupo que começou mais abaixo. Em 1982, elas recebiam apenas cerca de 25% da renda dos homens brancos. Mesmo com melhora contínua, o avanço ocorreu em ritmo lento e, em 2020, elas chegaram a 46% da renda dos homens brancos.

Deste modo, as brancas foram as que tiveram maior progresso na renda, o que fez aumentar sua participação entre os 1% com maior renda do país. E o que explica esse avanço?

Bem, um conjunto de fatores. Dentre eles, a ascensão das brancas deve ser analisada à luz das transformações estruturais do Brasil contemporâneo. O país experimentou um processo de expansão educacional que beneficiou, sobretudo, as camadas médias urbanas. Nesse ambiente, as brancas, que têm maior acesso à educação formal, recursos e redes de contato, foram capazes de capitalizar os ganhos que vieram com os avanços econômicos e com as mudanças nas normas de gênero.

As mulheres negras tiveram mais dificuldade em romper a combinação perversa de racismo, pobreza e sexismo. Apesar de terem aumentado sua escolaridade e presença no mercado de trabalho, encontraram desvantagens muito superiores às de suas colegas brancas. O mercado cultural, por exemplo, ainda perpetua padrões estéticos que valorizam tonalidades de pele mais claras. O acesso desigual a creches, saúde e transporte limita sua ascensão profissional. Muitas vezes, o acúmulo de tarefas domésticas, herança de um modelo de trabalho racializado, impede a dedicação a carreiras mais rentáveis.

Razão de rendimentos dos grupos de raça e gênero em relação aos homens brancos, 1982 até 2020







Ano Mulher branca (%) Homem negro (%) Mulher negra (%)
1982 55 50 25
2000 67 50 34
2020 77 57 46

Assim, de uma forma geral, o mercado formal de trabalho foi um espaço que se abriu primeiro para quem tinha alguma reserva de privilégio. E convenhamos que, no Brasil, o privilégio tem ausência de cor. Enquanto as brancas consolidavam vitórias da ampliação, mesmo que ainda longe do ideal, da inclusão feminina no mercado de trabalho, as negras seguiam ancorando a economia informal.

O resultado são múltiplas camadas de desigualdade, nas quais uma parte das mulheres conseguiu romper o teto de vidro enquanto outra parte substantiva segue lutando pelo chão de concreto.

Apesar disso, os ganhos femininos não devem ser minimizados. As brancas ocuparam uma proporção maior dos postos acadêmicos, tornaram-se juízas, médicas e executivas. Chegaram ao STF e até à presidência. Mas o discurso de inclusão feminina como se fosse para todas tem escondido o fato de que o Brasil tem produzido uma elite feminina tão homogênea quanto a masculina que a precedeu.

O texto é uma homenagem à música Sugar Sugar, de The Archies.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

[ad_2]

Fonte: Folha de São Paulo


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *