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As vendas externas da principal commodity agrícola dos Estados Unidos despencaram diante da recusa da China em comprar soja americana, num golpe considerado “devastador” para os produtores do país.
A nova temporada de exportações começou sem registros de vendas ou embarques para a China, mostram dados oficiais —uma forte ruptura em relação ao mesmo período do ano passado, quando já haviam sido contratadas 6,5 milhões de toneladas. Enquanto isso, os estoques começam a se acumular com a chegada da colheita de outono nos EUA.
Durante décadas, mais da metade da soja americana foi destinada ao mercado chinês, o maior comprador mundial. Mas, neste ano, com as negociações comerciais entre Washington e Pequim travadas, nenhum grão dos EUA seguiu rumo ao país. O resultado é que agricultores enfrentam dificuldades para se manter, com armazéns lotados e preços em queda, enquanto a China se abastece em volumes recordes do Brasil.
“Estamos contra o relógio neste momento”, diz Darin Johnson, presidente da Associação de Produtores de Soja de Minnesota e agricultor de quarta geração. “Mesmo que se chegue a um acordo [com a China], não será a tempo desta safra.”
Assim como produtores em todo o país, Johnson encara uma colheita sem destino certo. Os agricultores enfrentam “um excesso de soja”, afirma, cujo impacto pode ser “devastador”.
A soja é usada principalmente na alimentação animal, mas também tem aplicações na indústria e no consumo, com derivados como o óleo de soja, que servem para fabricar desde biocombustíveis até espuma para combate a incêndios.
A oferta excedente pressiona os preços justamente quando os custos de insumos como fertilizantes sobem devido às tarifas.
Desde que o governo Donald Trump impôs sobretaxas sobre produtos chineses, Pequim retaliou suspendendo todas as compras de soja americana. A medida ameaça agricultores do Meio-Oeste com prejuízos elevados e pode colocar em risco fazendas familiares de várias gerações.
Além do peso econômico, a crise tem relevância política: os sojicultores são um bloco eleitoral crucial, transformando a disputa comercial em ponto de tensão nacional.
Trump afirmou na quinta-feira (25) que usará a receita das tarifas para financiar um programa de apoio aos agricultores, repetindo declaração feita pela secretária de Agricultura, Brooke Rollins, ao Financial Times na semana anterior.
“Vamos pegar parte desse dinheiro arrecadado com tarifas e entregá-lo aos nossos agricultores, que, por algum tempo, vão sofrer até que as tarifas comecem a trazer benefícios”, disse Trump a jornalistas durante cerimônia na Casa Branca.
Enquanto isso, a crise no campo corre o risco de se aprofundar. “Quando a economia agrícola vai mal, isso impacta diretamente nossas pequenas comunidades rurais”, afirmou Johnson. “Afeta a América rural, afeta a pequena cidade onde eu vivo.”
Não é a primeira vez que os produtores americanos enfrentam esse cenário.
Em 2019, após Trump adotar tarifas contra a China, Pequim reduziu drasticamente as importações de soja dos EUA. O governo lançou então um pacote de resgate de US$ 23 bilhões para os agricultores. Na prática, porém, os grandes beneficiados foram os produtores brasileiros.
“Naquele episódio, perdemos cerca de 20% de participação no mercado para o Brasil, e nunca recuperamos”, disse Todd Main, da Associação de Soja de Illinois.
Agora, os chineses voltaram quase integralmente à América do Sul, impulsionando as exportações brasileiras de soja a níveis recordes. Entre janeiro e agosto, o Brasil embarcou 66 milhões de toneladas para a China —três quartos de suas exportações totais, segundo dados oficiais.
“O boicote da China à soja americana foi altamente favorável aos produtores brasileiros”, afirmou Raphael Bulascoschi, analista da corretora StoneX.
O governo também desmantelou a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), que costumava comprar “grande parte dos excedentes agrícolas para distribuição ao redor do mundo”, lembrou Main.
Além de usar a arrecadação com tarifas para apoiar os agricultores, a administração também propôs elevar a mistura obrigatória de biocombustíveis, o que aumentaria a demanda doméstica por soja.
Mas, segundo Scott Gerlt, economista-chefe da Associação Americana de Soja, embora a ajuda federal alivie no curto prazo, “não resolve a perda permanente de participação de mercado devido à expansão em outras regiões do mundo”. O aumento das cotas de biocombustível, acrescenta, “também não chega perto de compensar a demanda de exportação”.
“Há muita pressão financeira no campo e, quanto mais tempo a China ficar fora do mercado, maior será essa pressão”, disse, lembrando que os pedidos de falência de fazendas já estão em alta.
A fidelidade política do campo a Trump também está em jogo.
Os agricultores querem comércio livre, diz Johnson. “Entendemos perfeitamente que os acordos comerciais não são perfeitos e precisam ser renegociados”, afirma. “[Mas] esta situação pode se tornar muito grave muito rapidamente.”
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Fonte: Folha de São Paulo


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