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Do carro híbrido à inteligência artificial, passando por vacinas e minerais críticos, o Brasil precisa escolher suas rotas tecnológicas e superar entraves históricos para transformar conhecimento em desenvolvimento industrial e não ficar para trás na corrida global da inovação.
O recado foi dado por debatedores reunidos no seminário Inovação no Brasil, promovido nesta quinta-feira (25) pela Folhacom o apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e do Sistema Indústria. A mediação foi de Fernando Canzian, repórter especial do jornal.
Diante de dados como a queda da taxa de inovação na indústria nacional pelo segundo ano consecutivo (chegando a 65% em 2023), especialistas citaram desafios de capacitação, financiamento e ambiente regulatório como entraves que impedem o país de dar o salto necessário.
“Para inovar, a gente precisa ter capacidade, dinheiro e ambiente”, afirmou Thiago Camargo, vice-presidente da InvestSP (agência paulista de promoção de investimentos).
Ele defendeu uma regulação mais ágil e simplificada, especialmente para os setores de energia e de inteligência artificial. “A gente precisa de energia para data centers, para aumentar a produção de suco de laranja, para o hidrogênio verde. Mas o marco regulatório não acompanha essa necessidade.”
O ambiente macroeconômico, onde o alto custo do dinheiro desencoraja o risco inerente à área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), foi outro ponto ressaltado por ele.
“Dinheiro para inovar está difícil porque o dinheiro no Brasil está muito caro. Se você é remunerado em 15% ao ano deixando seu dinheiro parado, por que você vai fazer outra coisa com seu dinheiro?”, questionou.
O superintendente de Desenvolvimento Produtivo e Inovação do BNDES, João Paulo Pieroni, afirmou que houve uma retomada de uma política industrial no país a partir de 2023 e que uma das diretrizes é destinar recursos incentivados para áreas estratégicas, como inovação e descarbonização.
Ele reforçou a importância de focar o financiamento em determinados setores. “Temos recursos limitados e precisamos definir prioridades. Hoje, nossas apostas estão em inteligência artificial, biocombustíveis avançados, minerais críticos, indústria automotiva híbrida e biotecnologia”, explicou.
Segundo Pieroni, outro desafio central é difundir tecnologias para pequenas e médias empresas, que ainda operam com parques fabris defasados. Para isso, o banco lançou linhas de crédito específicas para a aquisição de equipamentos da chamada Indústria 4.0.
Citando o exemplo da China, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que o Brasil precisa definir rotas tecnológicas próprias, sem repetir modelos de fora.
“Qual é a vocação do Brasil? Para o BNDES, é o carro híbrido a etanol, que nos permite aproveitar todo o acúmulo que temos historicamente em relação a essa fonte de energia”, afirmou Mercadante, que abriu o seminário por meio de um vídeo gravado para o evento.
Mercadante também defendeu que o país se torne um produtor, e não só um consumidor de inteligência artificial, além do investimento em vacinas e antibióticos. Segundo ele, nos últimos dois anos e meio, o BNDES destinou mais de R$ 50 bilhões para a inovação na indústria brasileira, em parceria com a Finep.
Para Humberto de Alencar, secretário-adjunto municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo, a burocracia histórica tem sido um freio que impede o país de avançar na velocidade que a tecnologia exige. “Desburocratizar os processos é o caminho mais rápido para conseguir resultados”, disse.
Ele citou ferramentas jurídicas que a prefeitura vem trabalhando para facilitar a vida de startups e de projetos inovadores, como o “sandbox regulatório”, que define regras mais flexíveis para testar novas ideias. Também destacou a criação de um Distrito de Inovação na Cidade Universitária da USP.
Do ponto de vista da indústria, o problema é que o conhecimento produzido nas últimas décadas não tem chegado na ponta, afirmou Jefferson Gomes, diretor de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).
“Ainda não vimos essa transferência de conhecimento gerando notas fiscais.”
Para o diretor, o país precisa enfrentar gargalos estruturais, como a baixa qualificação da mão de obra e a dependência de matérias-primas críticas. “Economia circular não é só para agradar o planeta, mas uma necessidade econômica”, disse.
Gomes contou que, após visitas a mais de 3.000 empresas Brasil afora, a CNI constatou que o acesso a linhas de crédito é o maior problema.
“Elas estão inovando, exportando, mas não conseguem pegar dinheiro emprestado. Não sabem, falam que o processo é burocrático. A primeira coisa que eu recomendaria seria um programa massivo de letramento para a área de economia.”
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Fonte: Folha de São Paulo


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