Se Trump pedir à UE que desista do acordo com o Mercosul, ela vai fazer o quê?, questiona especialista no tratado – 04/10/2025 – Mercado

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Nascido na Argentina, com carreira acadêmica na Itália e em Portugal, o cientista político Andrés Malamud, 57, construiu uma espécie de ponte entre dois mundos.

Especialista em relações internacionais, estuda há 25 anos modelos de integração regional na Europa e na América Latina. Nos últimos anos seu trabalho transpôs os muros da academia: Malamud vem sendo convidado pelo Parlamento Europeu para escrever artigos com recomendações sobre o acordo entre União Europeia e o Mercosul —”dizer o que é possível, o que é impossível, o que é razoável e o que é insensato”, em suas palavras.

Malamud falou com a Folha no Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, onde é pesquisador. A seguir, os principais trechos da sua entrevista.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que gostaria de ver o acordo entre União Europeia e Mercosul assinado até dezembro, quando termina a presidência brasileira no bloco. Isso é possível?

O acordo entre União Europeia e Mercosul são, na verdade, dois acordos. Um é o acordo provisório de comércio. Outro é o acordo global, que inclui o acordo de comércio. O pilar comercial é competência exclusiva da União Europeia, enquanto os pilares de cooperação e diálogo político são competências partilhadas com os Estados-membros. O acordo provisório de comércio pode ser totalmente aprovado em Bruxelas, pela Comissão Europeia, Conselho Europeu e Parlamento Europeu. É viável aprovar essa parte agora, talvez no prazo desejado por Lula —mas há o risco de o acordo global não ser aprovado depois.

O que acontece neste caso?

Se o acordo provisório de comércio for aprovado, mas depois o acordo global for rejeitado, o pilar comercial pode cair, abrindo espaço para a judicialização. O acordo global requer a aprovação de cada um dos parlamentos nacionais, e alguns países têm mais que um parlamento —é o caso da Bélgica, que tem vários regionais. Estamos então a falar de mais de 30 parlamentos, nacionais e regionais.

Quais as vantagens de intensificar a colaboração com a União Europeia, do ponto de vista do Mercosul?

A Europa é um mercado premium, que compra produtos de alto valor agregado, de alta qualidade. Exportando para a Europa, o Mercosul ganha o carimbo de qualidade e se apresenta para o mundo como capaz de cumprir normas equivalentes a um ISO 9000. Se o nosso produto pode ser vendido na União Europeia, pode ser vendido em qualquer lugar.

Uma dessas certificações teria a ver com a questão ambiental, correto?

Sim. O Mercosul —principalmente Brasil e Argentina— é um grande produtor de alimentos, que a Europa só compra se tiver certificação ambiental. O que não é um problema. A produção de alimentos do Mercosul já responde atualmente aos requisitos mais exigentes. Além disso, a matriz energética do Mercosul é mais limpa que a europeia, cada vez mais hidrelétrica e solar, e o hidrogênio verde vem aí. Em muitos critérios, como este, o Mercosul pode provar que está mais avançado que a União Europeia. Não é verdade que esta seja uma relação entre uma potência altamente desenvolvida e uma potência subdesenvolvida.

O acordo vem sendo negociado há mais de 20 anos. O que mudou nesse período?

Há uma grande mudança entre 1999, quando começaram as negociações, e 2025. Naquela época buscava-se eficiência econômica. Hoje se busca resiliência mais que eficiência. Nos anos 2000, a União Europeia pensava ser o farol do mundo. Ela marcava o caminho que outras regiões seguiriam depois, que era a integração racional, baseada na eficiência dos mercados e na paz global. Era um continente que não precisava de exércitos. Nessa visão, eram os mercados e as regulações eficientes que determinavam o futuro. Hoje não é mais assim. É a guerra que manda. A União Europeia não procura mais liderar o mundo. Ela procura sobreviver no mundo, no qual está invadida por um lado e tarifada pelo outro. A União Europeia está na defensiva.

Não é apenas a União Europeia que está sendo tarifada. Dentro do Mercosul, o Brasil é uma das maiores vítimas das tarifas de Donald Trump.

O caso europeu é mais grave. O Mercosul enfrenta um desafio econômico. Que não é apenas econômico, concordo, pois Trump mandou aquela carta, em que fala do processo judicial interno do Brasil e das big techs. Mas não é guerra. A União Europeia enfrenta as duas ameaças. Então, neste momento, os europeus estão a se defender, querem sobreviver. Vinte e cinco anos atrás queriam crescer. Era um projeto de mercado. Agora é uma questão política, além da econômica.

Seu artigo mais recente, escrito em parceria com o cientista político argentino Luis Schenoni, fala do novo cenário mundial com Trump. Trump é um desafio ou uma oportunidade? Facilita ou dificulta o acordo entre União Europeia e Mercosul?

A resposta era uma dois meses atrás e outra agora. Em relações internacionais, as potências que não são hegemônicas têm três opções. Ou se alinham com a potência hegemônica, ou se unem contra ela, ou tentam autonomia —procuram seu próprio espaço, sua margem de manobra. A União Europeia queria liderar 25 anos atrás. Dois meses atrás, queria ser autônoma. Agora, alinhou-se com os Estados Unidos.

Então o acordo entre União Europeia e Mercosul, dois meses atrás, fazia muito sentido. Neste momento, se Trump pedir para a União Europeia dizer não, a União Europeia vai fazer o quê? Isso mudou em dois meses: entre a “autonomia estratégica” vociferada por Emmanuel Macron e a entrega que Ursula von der Leyen faz quando vai ao campo de golfe de Trump na Escócia. Lá ela aceita os 15% de tarifas dos Estados Unidos contra zero da União Europeia.

Dentro da União Europeia há também muitas divergências, a começar pelos dois países mais ricos, França e Alemanha. Quanto isso atrapalha no acordo?

Isso tem a ver com a estrutura econômica de cada país. A Alemanha é uma economia industrial, a França também é, mas as relações que a França tem com o Mercosul dependem mais do agronegócio que da indústria. A Alemanha quer vender carros no Mercosul, e a França não quer comprar vacas do Mercosul. Cada um teve uma vitória nos últimos meses. A França teve uma vitória quando aumentaram as tarifas contra a China. Votaram, a Alemanha perdeu e a França ganhou. Mas foi o contrário no acordo com os Estados Unidos —aí a Alemanha ganhou e a França perdeu. O acordo com o Mercosul é o desempate. E ainda não sabemos o que vai acontecer. O embaixador francês disse-me que a aprovação deste acordo selaria a queda imediata do governo francês. O acordo comercial provisório, como vimos, pode ser aprovado nas instâncias da União Europeia, mas o acordo global provavelmente será rejeitado no parlamento francês —o que pode levar à judicialização.

Já no Mercosul, as duas principais economias, Brasil e Argentina, estão em campo ideologicamente opostos, com Lula e Javier Milei. Isso não atrapalha?

Surpreendentemente não. Por necessidade, mais que por doutrina. O Brasil, protecionista, recebeu concessões na renegociação entre 2019 e 2024, uma pequena proteção para os fornecedores nacionais no caso das compras governamentais. No caso da Argentina, o presidente, mesmo pertencendo a uma internacional de partidos protecionistas, não é protecionista. É um libertário, ele quer comércio. Ele tem um discurso de alinhamento completo com os Estados Unidos e Israel. Mas depois, na prática, Milei é mais pragmático.

Milei prometeu fazer tudo o que Trump faria.

Sim. Os Estados Unidos se retiraram da Organização Mundial de Saúde, e a Argentina também. Os Estados Unidos se retiraram do Acordo de Paris —mas a Argentina não. Porque o Acordo de Paris foi incluído na última renegociação entre União Europeia e Mercosul, em 2024, como cláusula de elemento essencial. O que quer dizer esse termo jurídico? A questão ambiental ficou tão importante quanto democracia e direitos humanos. Se você se retira do Acordo de Paris, fica fora do acordo entre União Europeia e Mercosul. Milei preferiu ficar nos dois acordos.

Em seu artigo mais recente, vocês falam da importância das relações pessoais entre presidentes, mais frequentes no Mercosul que na União Europeia.

Pensamos que era um achado nosso, mas talvez não seja. As fotografias de Lula e Macron em cenas de paixão, divulgadas como memes, demonstram que eles também acreditam que a conexão pessoal é importante. Na pesquisa acadêmica, o Mercosul é visto como um produto do interpresidencialismo. O que é o interpresidencialismo? Em contraste com a União Europeia, é o funcionamento de um bloco não a partir de instituições comuns, mas a partir de acordos diretos entre presidentes. Em outras palavras, o telefone vermelho.

Quando é preciso tomar uma decisão ou resolver um conflito, não há tribunal nem parlamento. Não há reuniões de ministros em Montevidéu, como há em Bruxelas. Se há conflitos, o presidente argentino e o brasileiro levantam o telefone e resolvem. E se não conseguem por telefone, viajam. Eu estudei o interpresidencialismo e mostro como o Menem, numa viagem aos Estados Unidos, faz uma escala imprevista para falar com o Fernando Henrique Cardoso e resolver um conflito. Isso é uma coisa que a União Europeia pode aprender e utilizar a seu favor.

Em outro trecho do artigo falam da relação entre guerra e criminalidade. Poderia desenvolver um pouco mais?

Sim. Hoje a guerra é uma das principais preocupações da Europa, e o crime uma das principais preocupações da América do Sul. O crime na América Latina tem consequências na União Europeia, porque está relacionado com o narcotráfico. O Mercosul produz ou transporta, a União Europeia consome, e as máfias que fazem o processo da viagem são as mesmas.

Quanto à guerra, o Mercosul pode se beneficiar, o Brasil sobretudo, por causa da indústria militar. A América do Sul também pode oferecer expertise em desminagem, o desarmamento de bombas terrestres, que a Argentina conhece bem por causa da experiência das Malvinas. Ou seja, Mercosul e União Europeia podem participar da luta contra o crime e estabelecer parcerias na indústria militar.

A guerra com a Rússia também abre possibilidades comerciais?

A União Europeia não é autossuficiente em muita coisa. Ninguém é autossuficiente. Mas a União Europeia menos que outros porque não tem petróleo e não tem minérios. Comprava gás da Rússia. Com a guerra, tiveram que comprar mais caro de outros lugares. Um dos argumentos dos que são contrários ao acordo é que a União Europeia não deveria depender do Mercosul para segurança alimentar. A pergunta que nós colocamos: a Europa decidiu depender energeticamente da Rússia; por que depender do Mercosul na área de alimentos seria mais perigoso? É mais conveniente cultivar amigos e depender de amigos do que depender de inimigos. Melhor comprar de países capitalistas e democráticos que são sócios do que de autocraciais suspeitas.

Já que falou em democracias. A União Europeia se define como um clube de democracias. Pode haver também um intercâmbio nesse sentido? No Brasil, a proposta de regulação de redes sociais é inspirada na legislação europeia.

Isso é muito interessante, chama-se “policy diffusion” e funciona. O que não funciona são condicionalidades externas. Que venha outra região dizer, “se vocês não são democráticos, nós não fazemos comércio”. Isso não faz com que a outra região se torne democrática. O que a literatura mostra é que, quanto mais democrática uma região, maior a probabilidade de serem democráticos os seus membros. Não é a região de fora que democratiza, é a própria região. A União Europeia nunca suspendeu um membro por ser antidemocrático. O Mercosul fez isso duas vezes, com o Paraguai e com a Venezuela. O Mercosul tem uma aplicação da cláusula democrática mais efetiva que a União Europeia.


Raio-X Andrés Malamud

Buenos Aires, 1967– Pesquisador-principal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi pesquisador-visitante no Instituto Max Planck em Heidelberg (Alemanha) e na Universidade de Maryland (Estados Unidos). É licenciado em Ciência Política pela Universidade de Buenos Aires, com doutorado no Instituto Universitário Europeu (Florença, Itália). Autor dos livros: “La profesión más antigua del mundo: secretos, mentiras y belleza de la política” (2020) e “Diccionario arbitrario de política” (2023)

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Fonte: Folha de São Paulo


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