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Se pá, o leitor desta Folhanunca vai ver o livro “No Corre, A Cultura Financeira da Quebrada”, que não é vendido em livrarias, mas doado em eventos sociais. Mas ele já circula livremente pelas muitas quebradas de São Paulo, e pode ser considerado um manual de orientações básicas para lidar com o dinheiro quando ele é curto, suado e conquistado ao custo de muitos sacrifícios. Um dinheiro, assim, como o de milhões de brasileiros que se equilibram entre a dívida, a inadimplência e a segregação dos grandes centros financeiros. Um dinheiro conquistado no corre de cada dia —mas que escorre pelo ralo se o cidadão bobear.
Que ninguém imagine algum “farialimer” raiz, com seu colete de gominhos, ditando regras sobre Tesouro Direto, pregão da B3 ou cobrança de recebíveis. A língua de “No Corre” é aquela que se ouve nas franjas da cidade, a língua das batalhas de rima, cantada pelos Racionais MCs e outros porta-vozes das periferias. Se pá, expressão muito usada por essas bandas e que pode ser traduzida como “de repente”, “se der” e mais uma meia dúzia de significados, aparece várias vezes ao longo do texto de leitura gostosa e cheia de boas intenções —e dicas.
O livro é parte de um projeto mais ambicioso, contemplado por várias leis de incentivo e pelo patrocínio “do dinheiro neoliberal, mas que não influenciou uma vírgula do texto” do banco Nu, como define seu coordenador, Ivan Gomes Barbosa, presidente do Instituto DiverCidades. A história do projeto, que inclui ainda podcast, um documentário e uma websérie, é inspirado na trajetória dele mesmo.
“Eu vivi muitas vidas e minha vida inicial foi de extrema miséria”, conta Barbosa. “E não estou falando de pobreza, não, mas de miséria mesmo, de pedir em farol, de casa cheia de ratos, com móveis todos doados, chão cheio de bituca, irmão na cracolândia, do sonho de ascender jogando futebol.”
Se o futebol não deu certo, um amigo que conheceu no projeto social esportivo o levou para o Mackenzie, onde conseguiu bolsa de estudos. “Lá eu descobri que lia palavras, mas não era alfabetizado, não juntava significados, consegui crescer com projetos de alfabetização de adulto, cursinho, tudo o mais, e consegui uma ascensão meteórica com faculdade, ProUni, comecei a trabalhar em organizações financiadoras, grandes empresas patrocinando projetos culturais, enfim, ganhei muito dinheiro muito rapidamente”, recorda.
Com o dinheiro correndo solto, Barbosa se casou, viajou, frequentou restaurantes caros e vivia no que reconhece ser “um nível de desorganização econômica que era uma burrada” e que o levou a adoecer e optar por fugir do mercado corporativo e virar marceneiro —atividade com a qual não tinha a menor intimidade.
Continuou gastando a rodo até um dia descobrir, ao passar o cartão num restaurante, que havia zerado a conta. “Precisava voltar ao mercado de trabalho, mas não conseguia, foi muito trabalhoso me reinserir até conseguir captar recursos para o projeto de uma parceira sobre educação financeira para crianças, com um perfil mais racial, periférico”, conta.
A experiência de maltratar o dinheiro o inspirou a “lidar com questões mais complexas, da memória da escassez, do que a gente quer viver e sonhar, das questões de pessoas periféricas que nos unem”. E assim nasceu o projeto de “No Corre”, que entrelaça, com a coordenação de Simone Carvalho e as orientações financeiras de Dina Prates, três histórias de personagens reais e familiares a todo periférico —o motorista de aplicativo que também corta cabelo e sonha com sua barbearia própria, mas rejeita a tese de precarização por preferir poder pegar as crianças na escola a se submeter aos horários de um patrão; a menina que cruza a cidade de madrugada para trabalhar no escritório de advocacia onde conseguiu estagiar e ser efetivada graças ao contato de uma faxineira desse mesmo escritório; e os donos da vendinha que enfrentam a concorrência de mercados maiores e as dificuldades da burocracia estatal.
A partir de cada um desses relatos, o livro traz dicas valiosas de organização financeira, entidades de apoio a diversas necessidades de cada etapa do cotidiano e contatos de instituições que orientam cada demanda, do Sebrae até atendimento psicológico voltado para os problemas das periferias. No caso, nem são as dores proclamadas pelas startups a caminho da Faria Lima, mas as da vida real, no bolso e no lombo sofrido.
Quem quiser conhecer o livro, pode entrar em contato com o Instituto DiverCidades. Por meio de uma doação e pagamento do frete, um exemplar pode ser enviado, e vai ajudar a bancar a reedição já demandada pelos movimentos sociais atendidos.
Hoje, são 1.500 exemplares distribuídos em eventos promovidos em eventos realizados em pontos vitais da periferia de São Paulo, mas Barbosa já sonha com uma reedição para poder levar o material para mais quebradas por aí.
No Corre, a Cultura Financeira da Quebrada
Coordenação Ivan Gomes Barbosa, textos de Dina Prates, Thais Erre, Caio Graco, Camilla Freitas, Hysabella Conrado e Simone Carvalho,
Editora Ih… Fiz Arte!, 146págs.
Distribuído gratuitamente em eventos de movimentos sociais, pode ser obtido junto ao Instituto DiverCidades mediante doação
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Fonte: Folha de São Paulo


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