Psicodélicos: minicérebros desvendam mistérios – 03/04/2024 – Virada Psicodélica


A ciência esclareceu pouco, ainda, dos mecanismos de radicais alterações da consciência mediadas por psicodélicos como MDMA, psilocibina e ayahuasca, assim como de seu potencial terapêutico. Dois pesquisadores brasileiros propõem recrutar um exército de minicérebros para dissolver enigmas remanescentes dos estados alterados.

A proposta está no artigo “Células-tronco pluripotentes humanas como caixa de ferramentas translacionais na pesquisa psicodélica in vitro”, de José Alexandre Salerno e Stevens Rehen, publicado no periódico iScience. Salerno é estudante de doutorado em ciências morfológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Rehen pesquisa no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), no Instituto Usona e na Promega Corporation em Wisconsin (EUA).

A dupla elenca vários mistérios renitentes do efeito psicodélico, ou resolvidos apenas em parte. São hipóteses como o papel da inflamação em transtornos psíquicos, por exemplo a depressão, e a virtude anti-inflamatória da dimetiltriptamina (DMT) presente na ayahuasca, entre outros compostos.

“Algumas poucas investigações clínicas exploraram biomarcadores inflamatórios após exposição a substâncias psicodélicas por meio da análise de fluidos periféricos, produzindo resultados heterogêneos”, diz o artigo. “Até o presente, não há evidência clínica suficiente a apoiar o papel intrínseco de psicodélicos como agentes anti-inflamatórios.”

Outro mecanismo apontado como explicação do efeito antidepressivo, a neuroplasticidade (formação de novas conexões neuronais), tampouco conta com base sólida. Estudos animais produziram resultados díspares, e não se comprovou se todos os psicodélicos induzem a neurogênese nem se tal processo tem significado translacional para humanos.

Outro campo em aberto é a comparação entre os efeitos específicos dos diversos psicodélicos. Nos detalhes de sua ação bioquímica, entre eles o grau de afinidade com tais e tais receptores na superfície de neurônios, pode residir o segredo para definir quais deles serão mais eficazes contra cada transtorno mental.

A dificuldade desse campo decorre de não ser possível reproduzir com pessoas certos estudos feitos com cobaias animais. Roedores submetidos a psicodélicos podem depois ter seus cérebros fatiados e bioquimicamente devassados para descobrir o que aconteceu ali, mas não se faz isso com gente.

O translado de conclusões obtidas com modelos animais para aplicações biomédicas nem sempre dá certo. Apesar de próximos na evolução, cérebros de camundongos, ratos ou coelhos diferem em vários aspectos dos humanos, assim como a genética e a fisiologia de roedores e primatas.

O laboratório de Rehen no Idor já usa há algum tempo a tecnologia de organoides cerebrais, conhecidos como “minicérebros”, para encaixar algumas peças desses quebra-cabeças. Foi com eles que Rehen e colaboradores de outros instituições identificaram num componente da ayahuasca possível via terapêutica para Alzheimer. Outros resultados incluem o efeito do LSD sobre a formação de sinapses e a caracterização do efeito de 5-MeO-DMT sobre centenas de proteínas.

Além dos organoides, Salerno e Rehen propõem no artigo ampliar os testes com psicodélicos para incluir também o que se chama de “assembloides”. Essas construções de laboratório configuram um tipo de upgrade da tecnologia anterior.

Organoides cerebrais são miniaturas de tecido cerebral cultivadas a partir de células-tronco. Já os assembloides combinam diversos organoides como peças de lego, cada um representando áreas específicas do cérebro. Criados pela fusão de diferentes tipos de organoides cerebrais, eles permitem estudar a migração de células, sua conectividade, a comunicação entre elas etc.

“A bioengenharia está evoluindo rapidamente para suplementar organoides cerebrais com produção de fluido cefalorraquidiano, vasos sanguíneos, barreira hematoencefálica e células da microglia, aperfeiçoando ainda mais o modelo para testes de intervenção com drogas que reflitam melhor cérebros humanos adultos”, preveem os autores do artigo.

———-

AVISO AOS NAVEGANTES – Psicodélicos ainda são terapias experimentais e, certamente, não constituem panaceia para todos os transtornos psíquicos, nem devem ser objeto de automedicação. Fale com seu terapeuta ou médico antes de se aventurar na área.

Sobre a tendência de legalização do uso terapêutico e adulto de psicodélicos nos EUA, veja a reportagem “Cogumelos Livres” na edição de dezembro de 2022 na revista Piauí.

Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte: Folha de São Paulo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

?>