Home / Negócios / A guerra entre fundos ativos e passivos esconde nuances – 03/10/2025 – De Grão em Grão

A guerra entre fundos ativos e passivos esconde nuances – 03/10/2025 – De Grão em Grão


Quando alguém entra em um estádio de futebol, nem sempre percebe que a emoção que sente vem menos do gramado e mais da multidão ao redor. Os gritos e ondas nas arquibancadas moldam a experiência tanto quanto o jogo em si. No mercado financeiro, algo parecido ocorre com a disputa entre fundos ativos e passivos: enquanto todos olham para os “jogadores” —os gestores—, mudanças profundas acontecem na plateia —os fluxos de investimento.

Friedrich Nietzsche dizia que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. O embate entre gestão ativa e passiva costuma ser tratado como questão de fé: ou você acredita nos gestores que tentam bater o mercado, ou confia cegamente na eficiência dos índices. Mas o debate é mais complexo do que parece.

Uma das confusões mais frequentes é considerar ETFs como sinônimo de fundos passivos. ETF é apenas a sigla para Exchange Traded Fund, ou fundo negociado em Bolsa. Nada obriga que seja passivo. Nos Estados Unidos, cresce o número de ETFs ativos, com estratégias sofisticadas e taxas comparáveis às de fundos tradicionais. A diferença está no ambiente de negociação —na Bolsa—, não na forma de gestão. Ou seja, ETF não é sinônimo automático de gestão barata ou passiva.

Além dessa confusão conceitual, há também especificidades locais que costumam passar despercebidas. No Brasil, boa parte dos fundos passivos não está listada em bolsa. Esses fundos têm características vantajosas para o investidor.

A primeira é o hedge cambial, presente em diversas versões locais que replicam índices internacionais. Em segundo lugar, oferecem simplificação tributária: não é preciso guardar e declarar ganhos e perdas a cada operação, como ocorre com ETFs em bolsa. Também têm o mesmo benefício fiscal dos ETFs, permitindo que perdas acumuladas reduzam o imposto sobre ganhos futuros em outros fundos da mesma categoria.

No debate global, os fundos passivos ganharam espaço por causa dos custos mais baixos e da dificuldade média dos fundos ativos em superar seus benchmarks líquidos de taxas. Em mercados muito eficientes, como o americano de grandes empresas, mais de 80% dos gestores ativos perdem do índice em horizontes longos, segundo a S&P Dow Jones Indices. Isso impulsionou a ascensão dos ETFs de índices e mudou a estrutura da indústria.

Porém, a expansão acelerada dos fundos passivos tem efeitos colaterais. Ao comprar ou vender ativos com base em fluxos e não em fundamentos, eles podem provocar distorções de preços, especialmente em segmentos de menor liquidez. Paradoxalmente, isso abre espaço para que bons gestores ativos explorem ineficiências criadas justamente pelos fluxos passivos. Esse é um dos principais argumentos usados por gestores para defender que a gestão ativa volta a ter terreno fértil em determinados nichos.

Para o investidor brasileiro, a escolha não precisa ser binária. Fundos passivos podem compor o núcleo da carteira de forma barata e simples. Já os fundos ativos fazem sentido para buscar retornos adicionais em segmentos menos eficientes, como small caps ou crédito privado e alternativos, onde a seleção criteriosa ainda faz diferença. Entender as nuances, em vez de aderir a convicções rígidas, é o melhor caminho.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.


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Fonte: Folha de São Paulo

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