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Quem já tentou remar contra a corrente sabe que, quando a correnteza muda, insistir no trajeto planejado só aumenta o desgaste. Michel de Montaigne observou nos Ensaios que nosso pensamento está sempre oscilando e se transformando, lembrando que a falibilidade é parte da nossa natureza. Os mercados vivem o mesmo dilema: seguir o plano original ou ajustar a rota quando o cenário deixa de cooperar.
A semana deveria ser dominada pelas duas reuniões que encerram o ano nos bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos. No Copom, o mercado já precifica manutenção da Selic, hoje em 15% ao ano, com pouco espaço para surpresas. No Fed, porém, a expectativa predominante é por mais um corte, que levaria a taxa básica americana ao intervalo entre 3,5% e 3,75%. Seria, em tese, uma semana de previsibilidade.
Mas a política brasileira tinha outros planos. Antes de comentar sobre a surpresa eleitoral, vale notar o contraste entre os dois países.
No Brasil, o ciclo de cortes segue pausado, e o comunicado tende a apenas reforçar cautela. Já nos Estados Unidos, o debate é real. Parte dos dirigentes argumenta que, com uma economia ainda resiliente, a Bolsa próxima de máximas e a inflação acima da meta, reduzir juros agora não soa tão prudente quanto Jerome Powell tem defendido. Ainda assim, os contratos futuros de Fed Funds seguem indicando maior probabilidade de corte. Ou seja, ainda pode vir uma surpresa que afetaria os mercados negativamente.
Caso a expectativa dominante de corte se confirme, o diferencial de juros entre Brasil e EUA aumenta, reforçando o apetite de investidores estrangeiros por ativos brasileiros. Em condições normais, isso poderia favorecer o câmbio e aliviar parte da tensão nos mercados de risco. Era esse o roteiro esperado para essa próxima semana.
Até que a antecipação do calendário eleitoral mudou tudo. As variações observadas na sexta-feira já indicaram o que esperar. O anúncio da indicação de Flávio Bolsonaro como candidato, construída pelo pai, reconfigurou as expectativas dos alocadores.
Como sempre escrevo, prever o desfecho de uma eleição com tanta antecedência é quase impossível. Mas um padrão é permanente: a volatilidade. Pesquisas oscilam, alianças se movem, discursos são ajustados. O mercado reage a cada sinal, premiando ou penalizando conforme o cenário se aproxima — ou se afasta — do que considera mais favorável. Importante reforçar: isso descreve o comportamento dos preços, não um juízo político.
Quando a discussão eleitoral surge cedo demais, mas ainda sem clareza de tendências, a postura natural do investidor é mais conservadora. Portanto, nesse momento, o mais indicado é manter posições em renda fixa, priorizando produtos pós-fixados. A orientação é esperar, observar e reduzir exposição enquanto o quadro se reorganiza.
A reação do mercado foi essa na sexta-feira: queda acentuada da Bolsa, alta do dólar e dos juros futuros. Não porque o Fed perdeu relevância, mas porque o investidor lê a política como um vetor de impacto mais profundo e duradouro do que a taxa que deve vigorar pelos próximos 45 dias.
Os mercados olham o presente, mas precificam o futuro. E o que pode ocorrer no Brasil ao longo dos próximos anos pesa mais do que qualquer decisão isolada de juros. Por isso, embora as reuniões dos bancos centrais sigam importantes, é a antecipação eleitoral que, neste momento, dita o ritmo da correnteza — e nos obriga, como lembraria Montaigne, a ajustar o remo sempre que o rio muda.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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Fonte: Folha de São Paulo


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