O estande da Nestlé Brasil na COP30, localizado na AgriZone, funciona como uma área de exposição sobre os benefícios da agricultura regenerativa, prática que reduz o uso de insumos sintéticos e busca devolver a biodiversidade ao solo. O CEO Marcelo Melchior fala com entusiasmo sobre as amostras de terras que estão em exibição para exemplificar a diferença em relação ao cultivo tradicional.
“As pessoas podem ver como é impressionante a diferença de um solo regenerativo em relação ao convencional —é outro visual, são outras cores. Você percebe a biodiversidade e o efeito para a planta”, diz Melchior à Folha na primeira de uma série de entrevistas com CEOs que participam da COP30, em Belém.
Oficialmente, a companhia suíça incentiva fornecedores a adotarem essa forma de cultivo desde 2022, como parte da estratégia para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em sua cadeia de produção. São cerca de 6.500 produtores no cacau, 3.800 no café e mais de mil no leite. Pouco mais de 41% desses três ingredientes são fornecidos à empresa por fazendas que aplicam agricultura regenerativa.
Melchior afirma que a prática já é escalável no Brasil, e que o desafio para ganhar impulso não é técnico, mas financeiro. “Essa agricultura precisa de financiamento de longo prazo, com taxas adequadas, menores que as praticadas atualmente”, afirma.
Para incrementar a atividade, a Nestlé anunciou nesta segunda-feira (10) dois convênios com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Um projeto vai testar como diferentes dietas afetam as emissões de gases de efeito estufa das vacas leiteiras, e o outro é voltado ao desenvolvimento de sistemas agroflorestais mais eficientes na produção de cacau.
Leia a seguir trechos da entrevista.
O agronegócio brasileiro é conhecido por sua resistência a técnicas alternativas para o cultivo. Prefere insumos sintéticos e métodos mais convencionais que, inclusive, emitem mais gases de efeito estufa. Como é fazer a defesa da agricultura regenerativa nesse ambiente?
Trabalhamos para mostrar o que ocorre na prática. Não adianta nada eu aparecer numa palestra e falar, porque o agricultor não vai acreditar. É preciso demonstrar como funciona —e não apenas numa fazenda modelo, administrada por nós. Nada disso. Apresentamos os resultados de parceiros que adotam essas políticas, e eles são os multiplicadores.
Aqui, a gente mostra como funciona para o solo. Colocamos amostras de solo na entrada. As pessoas podem ver como é impressionante a diferença de um solo regenerativo em relação ao convencional —é outro visual, outras cores. Você percebe a biodiversidade e percebe o efeito para a planta.
Claro que o convencimento do produtor precisa ser feito em estágios, degrau por degrau. Para conquistar a confiança, e fazer com que o produtor mude a forma como ele trabalha, é preciso que ele veja os resultados no negócio. A maioria desses negócios são empresas familiares. Um erro custa muito para eles. Então, primeiro, altero uma parte da produção, depois outra. O trabalho progressivo faz com que a mudança seja sustentável também do ponto de vista econômico.
Trabalhar com esse conceito de cultivo regenerativo faz diferença na relação com o consumidor ou na exportação dos produtos?
Nós exportamos mais de 80% do café que compramos no Brasil. Todos os acordos firmados com os produtores atendem unidades da Nestlé no mundo todo. As práticas são checadas e certificadas. Têm selo. Eu costumo dizer que o café já está num círculo virtuoso.
O leite vai nos produtos. Não tem essa relação direta com o consumidor na maioria das vezes.
Cacau é diferente. Vai tudo para o mercado interno. Temos uma imensa oportunidade aí. O Brasil era um grande exportador até os anos de 1980. Perdeu a posição com uma praga, a “vassoura de bruxa”, mas também por causa de uma certa mentalidade. Tratavam o cacau como uma planta nativa, sem nenhum tipo de prática tecnificada. Sem poda, sem manejo de sombra. Agora, com a agricultura regenerativa e adequada seleção de espécies, o Brasil pode recuperar posições. Temos projetos em Rondônia, Espírito Santo, Pará e Bahia.
Hoje em dia, 30% do cacau que nós usamos vem do mercado internacional. Temos certeza que, com o manejo adequado, o país pode fechar esse gap e, ao menos, ser autossuficiente. O preço, inclusive, é um incentivo neste momento.
Em quanto tempo seria possível chegar à autossuficência?
Acreditamos que em cerca de dez anos.
Por que a Nestlé decidiu abandonar a aliança global para reduzir emissões de gás metano na produção leiteira?
Foi uma decisão da matriz. Não muda o que fazemos para reduzir as emissões nessa área.
Quando a gente fala de leite, 70% da pegada de carbono vem do alimento da vaca. Então, nós estamos melhorando a alimentação. O que posso dizer é que tem o efeito prático de nos permitir focar melhor em outras iniciativas, igualmente importantes, que demanda atenção. Vou dar um exemplo. Circularidade das embalagens. Ainda não encontramos uma fórmula eficiente.
O sr. está falando das capsulas de café?
Estou falando de tudo. Inclusive das embalagens de plástico —material das embalagens de chocolate, de biscoito. Precisamos encontrar um jeito melhor para que retornem à economia. Nós tivemos que explicar para o governo, por exemplo, que não fazia mais sentido proibir o uso de plástico reciclado na embalagem de alimentos.
Na visão do setores de alimentos, qual é a expectativa em relação a essa COP no Brasil?
Temos a grande oportunidade de mostrar as boas iniciativas do país e tirar aquela impressão de que a agricultura brasileira é um tipo de indústria pesada, cheia de agrotóxico. Quem visitar a AgriZone vai poder ver uma fazenda aqui atrás, absolutamente sustentável, um projeto da Embrapa. O Brasil desenvolveu muita tecnologia para ser realmente regenerativo, realmente sustentável. Não temos historinhas pontuais. Temos condições de mostrar escala. Nossos melhores empreendedores estão no agro. Temos tecnologia, drone, inteligência artificial, robô.
Tem condições de ter uma agricultura regenerativa com escala, é isso que esta dizendo?
Sim. Sem invadir área de floresta, sem desmatar. Mas para que isso ganhe velocidade, precisa de mais recursos, mais financiamento.
Quem trabalha com sustentabilidade de feito queixas recorrentes sobre a falta de financiamento. Qual é a limitação exatamente?
No caso do cacau, francamente, nem tem financiamento. Mas essa agricultura precisa de financiamento de longo prazo, com taxas adequadas, menores que as praticadas atualmente. Demanda política pública, ação de órgãos multissetoriais, órgãos internacionais. Não pode ser uma estrutura que coloca pressão no agricultor como se fosse uma empresa que tem que dar resultados a cada três meses. A agricultura não é assim. Se você quiser fazer uma transformação de verdade, precisa de pessoas e instituições que digam: ‘vamos lá, vamos juntos, por dois anos, três, quatro anos se for necessário’.
RAIO-X MARCELO MELCHIOR, 60
Carioca, formado em administração de empresas pela Universidade de Lausanne, na Suíça, e com especializações pelo IMD (International Institute for Management Development), no mesmo país, está no Grupo Nestlé há 30 anos, onde começou como trainee. Ocupou posições gerenciais em diferentes negócios, em países como Peru, Venezuela, México e vários na região da América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá), chegando à sede na Suíça. Assumiu o comando da companhia no Brasil em 2018.









