Declínio de Davos: o Fórum Econômico Mundial tem salvação? – 17/10/2025 – Mercado

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Abalado por escândalos, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) enfrenta uma de suas crises mais graves desde a fundação, em 1971. Um relatório confidencial de agosto sobre Klaus Schwab, 87, fundador do Fórum, revelou problemas graves na governança da instituição, e seu futuro agora depende do sucesso do encontro anual em Davos, em janeiro de 2026.

O documento de 37 páginas, produzido pelo escritório suíço Homburger, analisou mais de 100 mil emails, 65 mil documentos e ouviu 59 funcionários e ex-funcionários. O objetivo era apurar se Schwab e sua esposa Hilde haviam transformado o WEF em um feudo pessoal e fonte de benefícios privados.

A conclusão foi clara: não houve conduta criminal. Foram identificadas “irregularidades menores” —despesas sem justificativa clara, confusão entre gastos pessoais e institucionais, e falhas de gestão—, mas nada ilegal.

Para Schwab, o relatório foi uma absolvição. Ele exigiu compensação financeira e um reconhecimento público de que as acusações contra ele e a esposa eram falsas. Mas para alguns membros do conselho, o relatório confirmou um problema maior: Schwab centralizava decisões e administrava o Fórum como um negócio familiar.

O WEF emitiu uma nota cautelosa em 15 de agosto: “Pequenas irregularidades, decorrentes de linhas borradas entre contribuições pessoais e operações do Fórum, refletem compromisso profundo, e não intenção de má conduta.”

Larry Fink, da BlackRock, e André Hoffmann, da Roche, foram nomeados copresidentes interinos. Schwab não recebeu o título de presidente honorário. A declaração destacou que o próximo capítulo do Fórum seguirá a missão original de Schwab: “reunir governos, empresas e sociedade civil para melhorar o mundo”.

Durante décadas, o encontro anual em Davos atraiu chefes de Estado, líderes empresariais e figuras culturais, se tornando um palco neutro onde o consenso da elite era forjado sob a bandeira da diplomacia suíça. Foi palco de consensos políticos e diplomáticos, e de iniciativas globais de grande impacto, como a mediação entre Grécia e Turquia em 1988, o diálogo econômico pós-Acordos de Oslo e o lançamento de campanhas globais de vacinação por Bill Gates.

Hoje, porém, o mundo mudou. O multilateralismo recua, o protecionismo avança e a rivalidade entre grandes potências remodela a governança global. O WEF enfrenta não apenas a perda de seu fundador, mas também de líderes interinos influentes, como Peter Brabeck-Letmathe, ex-presidente da Nestlé que se desentendeu com Schwab e renunciou ao cargo.

Internamente abalado e externamente diminuído, o Fórum encontra-se em um momento incerto enquanto se prepara para sua próxima reunião anual. Os convites foram enviados aos participantes registrados esta semana com o tema “Um Espírito de Diálogo”.

Em abril, Schwab anunciou que deixaria o comando após 54 anos, pressionado por críticas internas e por um artigo do Wall Street Journal sobre a cultura de trabalho do Fórum. Pouco depois, um dossiê anônimo acusou o fundador de usar recursos do WEF para luxos pessoais, favorecer países em relatórios e tentar lucrar com royalties de livros custeados pela entidade. Ele também foi acusado de lançar sozinho projetos caros, como uma iniciativa no metaverso, restringir o acesso de funcionários a propriedades de luxo do Fórum, e usar a equipe para campanhas pessoais, como a busca por um Nobel da Paz.

As alegações foram fatais. Schwab renunciou e o Fórum contratou a Homburger para conduzir uma investigação independente. Furioso, o fundador iniciou ações legais paralelas para limpar seu nome.

Quando o relatório da Homburger chegou em agosto, constatou-se que a maioria das alegações, incluindo as mais graves, não eram fundamentadas. De acordo com o relatório, que não foi divulgado publicamente, mas do qual o FT analisou trechos, os investigadores revisaram 45 mil itens de despesas dos Schwabs.

O relatório concluiu que os gastos privados indevidos somaram menos de 5.000 francos suíços ao longo de 13 anos, sem tentativa de ocultação. Não houve provas de enriquecimento pessoal ou assédio, e as alegações de discriminação etária e tratamento inadequado de funcionários não se confirmaram.

Projetos como o metaverso receberam aprovação do conselho, incluindo a contratação de fornecedores a preços abaixo do mercado, e não houve evidência de restrição injusta de acesso. Presentes caros mencionados em denúncias, como um serviço de chá russo e abotoaduras da Tiffany, não puderam ser confirmados.

Mesmo sem criminalidade comprovada, o relatório revelou a centralização de Schwab. Ele chegou a cogitar transferir a sede do Fórum para Dubai, plano abandonado sem que a maioria do conselho soubesse. “Klaus geria o Fórum como um fundador de startup. Muito era formalmente aprovado, mas ninguém o controlava. Muitos conselheiros estavam lá por recompensa. Poucos estavam dispostos, ou interessados, em enfrentá-lo”, disse um ex-dirigente.

O acordo que selou a saída de Schwab incluiu compensação financeira, pensão e declaração formal de inocência. Internamente, o clima permanece frágil: “Klaus perdeu, Brabeck perdeu, o conselho ficou dividido e a reputação do Fórum sofreu”, comentou um funcionário.

Schwab, por sua vez, sente-se privado da dignidade que acredita ter conquistado, segundo pessoas próximas. Ele construiu o WEF do zero, com seu próprio dinheiro, e transformou a ideia em uma instituição global com quase US$ 500 milhões anuais em receita.

A ironia, dizem os conhecedores, é que a turbulência interna reflete o declínio da ordem multilateral que ele mesmo ajudou a construir. A crise do Fórum marca o fim de uma era —o período pós-Guerra Fria de integração global, otimismo de mercado e institucionalismo liberal. Essa era produziu Davos, e por décadas Davos a incorporou.

Mas o mundo de 2025 parece muito diferente. A economia global está fragmentada, a política climática molda as agendas nacionais, e novas tecnologias estão complicando como as sociedades veem o futuro.

A premissa do WEF de que o diálogo entre elites pode unir o mundo parece cada vez mais deslocada, especialmente porque sua linguagem sobre “reiniciar” o capitalismo e moldar futuros globais alimentou teorias da conspiração de que a instituição orquestra crises para expandir o controle sobre pessoas comuns.

Concorrentes também já preencheram o espaço de Davos: a Conferência de Segurança de Munique expandiu-se para debates geopolíticos, a Arábia Saudita criou o Future Investment Initiative, apelidado de “Davos do Deserto” e a China promove fóruns sob a bandeira da Nova Rota da Seda.

“Davos sempre refletiu o que aconteceu no mundo mais amplo”, diz Thierry Malleret, coautor de vários livros com Schwab e cuja próxima obra é intitulada “Morte de Davos”. “Teve glória porque o Ocidente estava embriagado com seu próprio poder e isso acabou. A multipolaridade é o futuro. Você terá eventos na China, Riade, Aspen —e o Davos europeu lentamente desaparecerá na irrelevância.”

A sobrevivência do WEF depende de sua capacidade de se reinventar estrutural, cultural e politicamente, em um mundo cético em relação a consensos de elite. Isso exigirá mais que novas lideranças: será necessário repensar limites e abordar a reação à globalização.

O teste imediato será Davos 2026. Os pesos-pesados corporativos no conselho estão sendo pressionados para ajudar a levar grandes nomes para Davos, para que os participantes pagantes possam ver o que estão comprando.

Fink está pessoalmente envolvido para garantir a presença de líderes globais e magnatas, incluindo Donald Trump. O CEO do WEF, Børge Brende, tem viajado sem parar pela Europa e América Latina.

Além de entregar Davos 2026 com sucesso, o desafio é manter relevância. Críticos apontam painéis previsíveis e dominados por consultorias, e sugerem que áreas anteriormente excluídas, como defesa, podem voltar à pauta. Alguns defendem manter o foco em seu ponto forte: o diálogo entre elites.

“O WEF ainda tem razão de existir, talvez mais do que nunca. Mas perdeu o rumo ao tentar ser protagonista. Seu papel é ajudar outros a melhorar o mundo —não reivindicar essa responsabilidade sozinho”, resume um conselheiro.

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Fonte: Folha de São Paulo


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