Gasto público teve efeito contracionista sobre o PIB no 1º semestre – 09/10/2025 – Bráulio Borges

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Entre 2020 e 2024, o desempenho do PIB brasileiro surpreendeu bastante as expectativas. A diferença entre as projeções de consenso e o resultado efetivo do PIB foi positiva em cerca de 2 pontos percentuais ao ano. Contudo, essa fase de surpresas favoráveis e expressivas parece estar terminando: a projeção mais recente do mercado indica uma expansão de cerca de 2,2% neste ano, número próximo dos 2% esperados para 2025 no final do ano passado.

O que mudou? Bem, em primeiro lugar, é importante notar que, entre meados de 2015 e o final de 2023, a economia brasileira possuía um elevado excesso de ociosidade (hiato do produto negativo, no jargão dos economistas). Dito de outro modo: o desemprego era muito elevado e o nível de utilização do estoque de capital, muito baixo. Nessas condições, uma economia pode crescer mais que o seu potencial, simplesmente ocupando capacidade ociosa.

Foi o que aconteceu com o Brasil: o PIB cresceu cerca de 3,5% a.a. em 2021-24, bem acima do ritmo potencial estimado por mim nesse período (pouco menos de 2% a.a.). Contudo, naquela situação, para ocupar o excesso de ociosidade seriam necessários alguns estímulos de demanda.

De onde eles vieram? Principalmente da execução da política fiscal, tanto do governo federal como dos governos regionais, que foi fortemente expansionista –e anticíclica, por ajudar a economia a superar o quadro de excesso de ociosidade e déficit de demanda agregada.

Em texto publicado recentemente no Observatório de Política Fiscal do FGV IBRE, eu estimei que o impulso fiscal associado ao gasto público do governo federal e dos governos regionais foi de quase R$ 400 bilhões, por ano, em 2022-24. A título de comparação, a variação absoluta do PIB total brasileiro nesse triênio foi de R$ 360 bilhões por ano (já descontada a inflação).

A novidade é que estamos observando uma inflexão neste ano de 2025, com o impulso fiscal do gasto público tendo passado a terreno negativo no primeiro semestre. Isso ocorreu sobretudo por conta da dinâmica das despesas dos governos regionais. No caso do governo federal, o impulso, embora ainda em terreno positivo, foi bem pequeno.

Trata-se de uma mudança bem-vinda: uma vez que a economia brasileira dá sinais de estar operando com algum grau de superaquecimento há alguns trimestres, seria importante que a política fiscal passasse a atuar de forma contracionista (mantendo-se anticíclica).

Caso essa postura da política fiscal permaneça contracionista (ou mesmo neutra) nos próximos trimestres, isso poderá criar espaço para que a taxa Selic possa recuar mais rapidamente. Desde o final de 2021 o Banco Central vem adotando uma política monetária restritiva, com a Selic acima das estimativas de juro neutro. Um dos motivos que levou o BCB a adotar essa postura foi justamente a expansão fiscal bastante expressiva.

Contudo, em contraste com aquilo que é apontado por boa parte dos analistas, não foi somente a execução da política fiscal que levou o BCB a elevar a Selic para 15% a.a., maior nível em quase uma década. O aumento da concorrência no mercado de crédito, sobretudo por conta da emergência das fintechs, vem reduzindo a potência da política monetária.

Ademais, um importante estabilizador automático existente no Brasil (e em boa parte dos países) há cerca de uma década –o colchão de capital anticíclico– deveria estar acionado há quase três anos, por conta do crescimento excessivo do crédito (que agora parece cobrar um preço, vide a situação de alguns bancos e setores que surfaram a onda de crédito, como o agronegócio). A meta de inflação de 3%, completamente irrealista, também tem parte da culpa.


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Fonte: Folha de São Paulo


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