O massacre do Rio deu um mote para a direita, que estava na defensiva. A chance de sucesso da contraofensiva cadavérica de governadores e outros políticos direitistas aumenta porque a esquerda quase nada faz em matéria de segurança.
Por falar em falta de programas de Lula 3, note-se o descaso com o setor elétrico, sob risco de colapso e crise financeira, salvo por ora apenas pela administração autônoma e competente do sistema. Ou a corrupção e a incompetência no INSS. Os Correios. Etc.
Interessa agora saber do desdobramento político desta outra encenação da farsa do “combate à violência”.
A Câmara diz que vota em dezembro a PEC da Segurança. Sabe-se lá o que será depois de emendada, de resto sabotada por governadores da direita e pela incompetência política federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou para o Congresso o projeto da lei antifacção, com “urgência” (depois de três anos de governo). Esses projetos, compridos e complexos, são arcabouço (opa) legal para novidades institucionais e de ação policial e investigativa, ok. Também aumentam penas, o que é inócuo se as prisões relevantes são poucas e os chefes do crime administram da cadeia seus negócios bárbaros. Leis não contêm bandidos, controle que depende de capacidade operacional, quadros pensantes (há), pessoal treinado, articulado, dinheiro (escasso, dado o gasto inepto) e apoio político e social.
Quando há capacidade operacional e inteligência, algo começa a andar, como se viu nas operações de Lula 3 contra empresas e finanças do crime. Medidas de papel ficam no papel. Vide as determinações do Supremo na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635 (“ADPF das Favelas”), destinadas a evitar chacinas estatais e criar condições para investigação e acompanhamento de surtidas policiais em bairros pobres do Rio. Parte dos mortos da matança da Penha e do Alemão era jogada em caçambas; outras cinco ou seis dúzias foram largadas no mato. Pouco se saberá do chacinaço e de seus responsáveis.
Vai haver CPI, chance de nada, embora uma investigação com os poderes do Congresso pudesse ajudar a esclarecer o tamanho da empresa do crime, condição para pensar a sua asfixia: esse é o caminho possível do governo.
A fim de conter o avanço da reação tétrica, Lula 3 teria de criar um comitê operacional de urgência para mostrar serviço no combate inteligente ao crime. Deveria ser o embrião de estrutura nacional executiva, o que depende de estados, PF, Ministério Público e, sim, Forças Armadas (até porque a guerra de Donald Trump contra “narcoterroristas” vai incentivar ainda mais invasão do tráfico internacional na Amazônia). Quando a situação não é midiática, politizada, governo federal e estados colaboram. Mas é tudo pontual.
O governo tem de montar essa estrutura amanhã e mostrar resultados em 2026. É longe de ideal, mas pode dar força política a ideias civilizatórias. Um comitê emergencial executivo pode atenuar crises e inspirar a reforma anticrime; chamem gente boa de fora do governo. Exemplo: o que FHC fez no setor elétrico depois da lambança do apagão de 2001.
É tarde. A direita quer imitar a motosserra de Javier Milei, o Estado policial mortífero de Nayib Bukele em El Salvador e a guerra contra as drogas de Trump. Faz tempo que a esquerda parou de pensar e de reunir quadros capazes (aliás, o centro minúsculo também); acha que governar é distribuir dinheiro. Acordem.
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