Mãe e filha dividem vida solitária de maquinista – 22/11/2025 – Mercado

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Na solidão da locomotiva, a realidade do momento vem à cabeça de Karen Vaz, 34. Ela é a única responsável por levar 138 vagões.

“É um fascínio. Penso: Minha Nossa Senhora, sou capaz disso! Eu me acho a primeira bolacha do pacote.”

Ao terminar as viagens de cerca de 200 quilômetros entre Rondonópolis e Alto Araguaia, duas cidades do interior de Mato Grosso, ela precisa passar o comando do trem. Não é raro que a substituta seja sua mãe, Alzinedi Vaz, 54.

Pode ser o reencontro entre elas depois de dias sem se verem. Se vão passar a noite em trânsito, em um dos alojamentos da Rumo Logística, terão tempo para contar as novidades. Elas são duas das 45 mulheres no cargo de maquinista na empresa.

“É quando a gente coloca a conversa em dia. Ninguém dorme”, diz, rindo, Alzinedi.

Segundo a companhia, o crescimento feminino na função é significativo. Em 2022, eram apenas duas. O universo totalé de cerca de 1.700 maquinistas, trabalho cada vez mais tecnológico em trens equipados com pilotos automáticos.

A empresa afirma buscar soluções para melhorar as escalas e facilitar o aumento no número de mulheres. Entende que nem sempre é fácil para elas ficarem longe de casa por cinco dias seguidos.

FORMAÇÃO

O curso de formação de um maquinista dura nove meses, mais longo que o de um piloto de avião, a depender da aeronave.

Os candidatos a maquinistas precisam aprender a ler gráficos que mostram como cada trem se comporta em diferentes trechos, além dos processos de aceleração e de frenagem. Há também horas em um simulador, que reproduz todas as ferrovias construídas e administradas pela empresa. São necessárias experiências práticas, com viagens ao lado de um instrutor.

“É como uma criança aprendendo a andar. Você conduz pela mão, faz junto todos passos até que ela tenha confiança. É automatizado, mas o maquinista tem de estar muito preparado e com conhecimento técnico pleno porque terá de tomar decisões em caso de qualquer intercorrência”, afirma Aline Frazilli, gerente de capacitação técnica da companhia.

No sistema de aceleração do trem, do ponto morto a 18 km/h, quem conduz é o maquinista. A partir dali, ele ou ela se torna supervisor do funcionamento do sistema automático, chamado Trip Optimizer. Quando se aproxima do ponto de chegada ou se há uma desaceleração a menos de 14 km/h, o comando volta a ser humano.

“O maquinista precisa perceber tudo o que está acontecendo até o último vagão e, às vezes, são mais de 130. Deve conhecer a relação entre causa e efeito e tomar decisões rápidas. É uma cadeia de ocorrências”, lembra Maria Alice Gregório, gerente de engenharia e operações da empresa.

Até 2030, a Rumo espera formar mais 600 maquinistas.

É necessário ficar 15 dias, durante o período de formação, na central da empresa em Araraquara, interior de São Paulo. A ideia agora é descentralizar e facilitar deslocamentos para quem mora em outras regiões.

O caminho natural é iniciar como manobrador, trabalho manual e que exige conhecimento técnico sobre o funcionamento de trens e vagões. É um pré-requisito para ser maquinista.

Foi o caminho de Alzinedi e Aline. No caso da filha, ser manobradora era ainda mais desafiador. Durante a pandemia da Covid-19, ela sofreu um derrame pericárdico, quando há excesso de líquido na bolsa que envolve o coração.

“Um dos meus pulmões tem a capacidade afetada em 75%. Achei que não iria dar conta [da função de manobradora] porque é pesada: retira vagão, retira locomotia”, afirma Aline.

A ROTINA

Os turnos de um maquinista são de oito horas. Há a troca de comando depois disso. Se a viagem for de Rondonópolis a Santos, por exemplo, o tempo médio pode chegar a 80 horas. São entre 13 e 14 trocas de maquinistas.

São horas de solidão. A composição de vagões pode ser grande, mas não há companhia. O maquinista viaja sozinho. Nem todos enxergam como algo ruim.

“Eu vejo como um momento de liberdade”, afirma Alzinedi. “Quando está dentro do trem, você faz muitos planos. Viaja também na cabeça. Pode ser solitário, mas eu gosto.”

Logo que começou na função, ela percebeu a fascinação de Aline por esse trabalho. Não lhe causou surpresa quando a filha disse desejar trilhar o mesmo caminho. Não esconde o orgulho porque, admite, trata-se de abrir caminho para outras mulheres em uma profissão que sempre foi vista como masculina.

“Hoje, se você perguntar pelo meu nome [em Rondonópolis], todo mundo vai saber quem é”, orgulha-se, depois de lembrar já ter recebido olhares enviesados nos primeiros meses da profissão.

“O que eu mais quero é ver mulheres na operação. Minha mãe me inspirou muito. Ela é guerreira de tudo”, completa Aline.

Pode se tornar uma tradição familiar. O marido dela também é maquinista de trecho da Rumo. A filha mais velha do casal, neta de Alzinedi, vai começar na empresa como jovem aprendiz. Não é segredo qual caminho Tamires, 15, deseja percorrer.

“Há um tempo ela estava me perguntando como é ser maquinista. Depois me falou sobre ter essa vontade. E ela nem conhece um trem ainda por dentro”, finaliza Aline.

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Fonte: Folha de São Paulo


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