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O argentino Pablo Lorenzo, 52, está chateado. O time do coração, River Plate, corre o risco de ficar de fora da Copa Libertadores da América de 2026, algo inédito nos últimos 11 anos. O time gastou mais de R$ 300 milhões na atual temporada e manteve a aposta em “medalhões” do futebol, que estiveram longe de apresentar o seu melhor desempenho. Alguns críticos dizem que se o River tivesse copiado rivais no Campeonato Argentino, melhorando a defesa e o combate no meio de campo, já teria se classificado.
Ao contrário do seu time, Lorenzo não tem tabu em copiar rivais ou empresas de outros segmentos que dão certo. É uma das suas “táticas” em campo. “Temos que ter a humildade de pensar que, em todas as indústrias e todos os concorrentes, encontramos coisas muito boas para copiar. A chave está em entender o que faz sentido para o nosso negócio e o que não faz”, diz o executivo em sua primeira entrevista desde que assumiu, em julho, o comando do Carrefour Brasil e a direção executiva do grupo para a América Latina, em substituição ao francês Stephane Maquaire, que deixou a companhia.
Para 2026, Lorenzo está empenhado em trazer o melhor da inteligência artificial na tentativa de prever comportamentos de consumo cada vez mais pulverizados –hoje mais da metade dos consumidores faz compras em oito canais diferentes–, aumentar a participação de fornecedores locais para diminuir custos logísticos e abrir até 20 novas lojas. Com isso, aumenta as vendas por metro quadrado e tenta controlar o nível de endividamento, por conta das altas taxas de juros.
Contador com mestrado em finanças, Lorenzo é o principal executivo de operações do Carrefour Brasil desde o fim de 2023. Prata da casa, o executivo começou no grupo francês há quase 30 anos e já passou por França, Espanha e Argentina. Foi na terra natal, como presidente do Carrefour, que conquistou bons resultados na venda online ao observar o modus operandi do McDonald’s.
Em meio à pandemia, era preciso agilizar as vendas da rede pela internet. “O que nós fizemos foi copiar de uma cadeia de fast-food de hambúrgueres, a mais conhecida do mundo –não vou dizer o nome, mas você deve saber qual é– o sistema de ‘click and collect’ [comprar online e retirar pessoalmente]”, diz Lorenzo. O cliente fazia uma compra no site ou aplicativo e, em três minutos, o pedido estava pronto, afirma.
“Passamos da quarta para a primeira posição entre os maiores competidores do comércio eletrônico da Argentina.”
Ironicamente, hoje o Carrefour está à venda no país vizinho. Líder do varejo local, o grupo não comenta a operação, mas não estaria mais disposto a enfrentar a instabilidade econômica argentina, segundo apurou a Folha junto a fontes próximas ao assunto. No Brasil, a maior filial dos franceses, o Carrefour fechou o capital em maio com o objetivo de “agilizar as operações” entre filial e matriz.
No país, o novo CEO tem muitos segmentos para observar mais de perto. “Hoje, 52% dos consumidores fazem compras em oito canais diferentes –farmácias, supermercados, varejo de bairro, internet etc.”, diz Rafael Couto, diretor de análises avançadas da consultoria Worldpanel by Numerator (antiga Kantar), referindo-se apenas a produtos de alto giro (alimentação, bebidas, higiene e beleza, limpeza). Há três anos, este índice estava em torno de 30%, afirma o diretor. Ou seja, o público vem mesclando mais os canais de venda, em busca das melhores promoções, condições de pagamento ou conveniência.
O Atacadão, rede comprada em 2007 que soma 387 atacarejos, responde por mais de 70% das vendas do grupo, também dono do clube de compras Sam’s Club (58 lojas). No portfólio, o maior varejista alimentar do país tem ainda 66 supermercados e 143 lojas de conveniência (Carrefour Express), além de 98 drogarias e 104 postos de combustíveis.
Lorenzo afirma que pretende manter os 112 hipermercados, um formato que vem registrando vendas em queda no Brasil. “Em nível global, os hipermercados estão se transformando em lojas com produtos a preços mais acessíveis.”
No próximo ano, serão abertas entre 10 e 20 lojas, boa tarde sob a bandeira Atacadão. Este ano, foram abertos apenas dez pontos de venda, com fechamento de três. “Com uma Selic elevada, o mercado como um todo desacelera em número de lojas”, diz o executivo, referindo-se aos custos de expansão.
No grupo, parte das funções de caixa é preenchida pelo autoatendimento, com recursos de inteligência artificial. “Até 2028, todas as lojas do Atacadão terão self-checkouts”, diz Lorenzo, que acredita em lojas com mix de caixas tradicionais e autoatendimento.
O uso da IA está voltado especialmente no tratamento das 600 milhões de operações de venda realizadas ao ano no Brasil. “Saber quem é o cliente, o que ele compra, onde compra e com qual frequência é importante para poder oferecer a ele promoções, por exemplo.”
O executivo está mais animado com o segundo semestre, quando vê possibilidade de a taxa básica de juros voltar a cair e a Copa do Mundo esquentar o consumo.
O argentino, que diz não ter um favorito para o próximo mundial. “Pode ser Argentina, Brasil, França ou Espanha. Morei em todos os países”, brinca. Por conta das mudanças de residência, diz que duas das três filhas nasceram no exterior –uma na Espanha e outra na França. “Minha esposa descende de alemães e eu sou argentino morando no Brasil. Sou internacional, que vença o melhor.”
O executivo afirma que toda a alternância de países e culturas lhe ensinou o respeito às diferenças. “A política de diversidade segue firme no Carrefour Brasil”, diz ele, em referência às ações para contornar a maior crise de imagem enfrentada pela rede francesa no país. Em 19 de novembro de 2020, às vésperas do Dia da Consciência Negra, Beto Freitas, um cliente negro de 40 anos, foi espancado até a morte por seguranças de uma loja em Porto Alegre, após desentendimento com uma funcionária do caixa.
O Carrefour fechou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público, que envolveu o aporte de R$ 115 milhões em ações antirracistas. Depois disso, investiu mais R$ 50 milhões nas iniciativas. Os negros hoje compõem 60% do atual quadro de 120 mil colaboradores e 36% das posições de liderança. A meta é chegar a 50% até 2030.
Colaborou Douglas Gavras, de Buenos Aires
RAIO-X CARREFOUR BRASIL
Fundação: 1975
Sede: Barueri (SP)
Funcionários: 12.000
Bandeiras: Carrefour, Atacadão, Carrefour Express, Sam’s Club
Presença: 763 lojas de varejo alimentar (em todos os estados do país e no Distrito Federal); 104 postos de combustíveis; 98 drogarias; 49 centros de distribuição
Principais concorrentes: Assaí, Grupo Pão de Açúcar, Grupo Matheus e grandes redes regionais
Faturamento em 2024: R$ 120,6 bilhões
2026, MODO DE USAR
Nova série da Folha traz entrevistas semanais em texto e vídeo, apresentando expectativas, receios e estratégias escolhidas para 2026 pelos principais executivos de dez segmentos diferentes: supermercados, varejo, consórcios, têxtil, calçados e confecções, ar-condicionado, tecnologia, telefonia, serviços financeiros e mobilidade. Todas as empresas da série faturam mais de R$ 1 bilhão ao ano.
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Fonte: Folha de São Paulo


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