[ad_1]
O sexto andar da icônica loja de departamentos BHV Marais, com suas amplas vistas para a Torre Eiffel, é um dos pontos comerciais mais cobiçados da cidade. E agora, é também o centro de uma polêmica envolvendo o gigante chinês de comércio eletrônico Shein, que está abrindo sua primeira loja física no topo da capital mundial da moda.
A notícia de que os produtos ultrabaratos da Shein —de minissaias cor-de-rosa a boinas pretas— passariam do varejo online para lojas físicas uniu políticos e fashionistas em indignação, impulsionando também esforços de parlamentares franceses para conter a expansão digital da empresa. A boutique em Paris está programada para abrir em 1º de novembro, e a Shein planeja abrir lojas em outras cinco cidades francesas, movimento que promove como uma “homenagem” à França e ao seu papel na moda.
Mas a estratégia de charme da empresa perdeu força. Na sexta-feira (10), funcionários do BHV Marais largaram os caixas por algumas horas e se reuniram do lado de fora para protestar contra a abertura de um espaço de 1.000 metros quadrados para a Shein. Muitos denunciaram o que consideram uma invasão de um concorrente chinês de baixo custo, que utiliza mão de obra barata e viola padrões ambientais e de direitos humanos na produção de suas roupas.
“A Shein vai contra nossos valores”, disse uma funcionária, que, como outros no protesto, preferiu não se identificar, citando preocupações com privacidade. “Sempre fomos uma loja bonita, com marcas bonitas, e tentamos promover a responsabilidade social corporativa.”
Anne Hidalgo, prefeita de Paris, não poupou críticas. “Paris denuncia a instalação da Shein, um símbolo do fast fashion, no BHV Marais,” declarou ela em uma publicação no LinkedIn nesta semana. A histórica loja de departamentos, conhecida como Bazar do Hôtel de Ville, foi construída como um mercado coberto em 1856.
Uma petição online pedindo que a Shein fosse impedida de abrir no BHV Marais reuniu quase 100 mil assinaturas em uma semana. A Shein não respondeu aos pedidos de comentário.
Na França, como em outros lugares, a Shein conquistou consumidores oferecendo uma enorme variedade de roupas baratas e estilosas, com frete gratuito direto das fábricas na China. Em um momento em que a França enfrenta austeridade econômica, instabilidade política e inflação persistente, a marca se posicionou como uma alternativa acessível às grifes francesas caras.
Mas, à medida que a Shein cresceu, também aumentaram as críticas às suas práticas. A empresa tem sido acusada de trabalhar com fornecedores que violam leis trabalhistas e de não divulgar completamente as condições de suas fábricas. A Shein afirma realizar auditorias internas regulares e seguir um rígido código de conformidade com seus fornecedores.
Nos EUA, o governo Trump recentemente fechou uma brecha que permitia o envio de mercadorias de baixo valor sem cobrança de impostos, atingindo diretamente o modelo da Shein. Capitais europeias também estão se movimentando para taxar a Shein e a Temu (outro varejista chinês de fast fashion) por pacotes pequenos, até que entre em vigor um imposto unificado da União Europeia em um ano.
A França, lar de marcas de alta-costura como Chanel e Dior, foi além. Pouco antes da Semana de Moda de Paris, o Senado francês aprovou uma medida chamada de “anti-Shein”, que prevê a cobrança de até 10 euros por peça comprada em plataformas chinesas como Temu e Shein, além de obrigar as empresas a relatar os impactos ambientais de suas roupas. O projeto, que ainda precisa de aprovação final, também proibiria os anúncios dessas empresas na França e puniria influenciadores que as promovem.
O órgão francês de concorrência multou a Shein em 40 milhões de euros em julho por “práticas comerciais desleais”, após uma investigação de um ano que concluiu que a empresa fazia propaganda enganosa de descontos.
A Shein tem rebatido. Para aumentar sua visibilidade, abriu sua primeira loja temporária no bairro do Marais durante a Semana de Moda, atraindo multidões. A influenciadora francesa Magali Berdah colaborou com a Shein em uma série de vídeos no TikTok, nos quais entrevista jovens franceses elogiando os preços acessíveis da marca, enquanto alerta que as novas taxas tornarão essas roupas fora do alcance.
“Essa taxa não vai tornar a moda mais responsável,” diz Berdah em um vídeo, referindo-se ao projeto do Senado. “Ela apenas a tornará menos acessível.”
“Ao escolher a França como lugar para testar o varejo físico, estamos homenageando sua posição como capital da moda e abraçando seu espírito de criatividade e excelência,” disse Donald Tang, presidente executivo da Shein, em comunicado.
Funcionários públicos, banqueiros e marcas de moda francesas estão unidos. Nesta semana, continuaram agindo com rapidez impressionante para conter o avanço da Shein, que, segundo autoridades, foi possível graças a um império imobiliário francês de propriedade familiar, a Société des Grands Magasins (SGM).
Esse grupo opera o BHV Marais e as Galeries Lafayette, outra famosa loja de departamentos com filiais em várias cidades francesas. Recentemente, fechou um acordo que permitirá à Shein operar em lojas com o nome Galeries Lafayette em Paris, Dijon, Reims, Grenoble, Angers e Limoges.
A SGM está tentando comprar o prédio do BHV Marais por completo. Mas nesta semana, o banco estatal francês, que estava negociando com a SGM para financiar a compra conjunta do imóvel, desistiu do acordo por causa da parceria com a Shein.
Um porta-voz da SGM disse que a Shein está “comprometida a cumprir todas as normas europeias, como qualquer outro fornecedor.”
“A Shein quer aproveitar esta operação para adaptar seu modelo de produção atual às exigências europeias,” acrescentou.
Dentro do BHV Marais, marcas francesas estão se retirando da loja em protesto, incluindo as linhas de cosméticos orgânicos Aime e Talm, a loja Culture Vintage e a marca de lingerie Le Slip Français.
“Nossas escolhas coletivas estão moldando o futuro da nossa indústria,” disse Mathilde Lacombe, presidente da Aime, no LinkedIn. “Quem está conosco?”
[ad_2]
Fonte: Folha de São Paulo


Deixe um comentário