[ad_1]
Francisco José Paiva Sousa, 54, não sabe muito bem quem é Donald Trump ou o que significa tarifaço. Mas em conversa com representantes de indústrias, ouviu que a combinação dos dois poderia alterar seu estilo de vida.
“A gente se preocupa, não é? É o ganha-pão de muita gente nos meses de safra”, afirma.
No caso do local onde mora, o Assentamento Aragão, em Miraíma, interior do Ceará, no meio do caminho entre Itapipoca e Sobral, são 40 famílias. Elas representam uma fração dos trabalhadores que dependem da produção da cera da carnaúba entre agosto e dezembro de cada ano.
A cera da carnaúba era uma das exportações brasileiras taxadas em 50% pelo presidente dos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (20), ele incluiu as ceras vegetais na lista dos produtos que tiveram alíquota reduzida para zero.
“Eu nem sei dizer o tamanho do alívio quando vi a lista e a carnaúba estava lá. Foi uma taxação que nunca se justificou porque não é algo que eles produzam e nem há concorrente”, afirma Daniel Fernandes, diretor executivo da Associação Caatinga, organização não governamental que apoia produtores da região do semiárido.
Não é produzido nos Estados Unidos e nem em qualquer outro lugar. A carnaúba é uma palmeira encontrada apenas no Nordeste brasileiro. A cera que protege suas folhas é retirada e vira um pó, depois vendido para indústrias que fazem o refino e o exportam.
A cera da carnaúba é um dos produtos de exportação mais antigos do país. Começou na década de 1850 e o primeiro grande mercado importador foi a Alemanha, sendo ultrapassada décadas depois pelos Estados Unidos. As principais utilizações eram para a fabricação de velas, ceras para pisos, encaixes industriais e polidores de móveis.
Ela hoje em dia tem uso nas indústrias farmacêutica, cosmética, na fabricação de vernizes, tintas, tonéis de copiadoras, etiquetas térmicas, doces, drágeas de comprimidos e emulsão de frutas pós-colheita.
“São funções que apenas a cera da carnaúba faz e não tem substituto a curto ou médio prazo”, afirma Gadelha.
Pelos dados da Associação, são cerca de 100 mil pessoas que atuam no extrativismo da carnaúba, uma palmeira
Segundo a Fiec (Federação das Indústrias do Ceará), foram produzidas cerca de 18 mil toneladas no ano passado. O valor arrecadado gira em torno de US$ 110 milhões por ano (R$ 594,5 milhões pela cotação atual).
“As vendas costumavam ser de 1.500 toneladas por mês. Em agosto [com a sobretaxa em vigor], foram 486 toneladas. O mercado se retraiu muito, mas já havia a sinalização do governo norte-americano de que haveria redução. Nossos compradores estavam pressionando”, diz Edgar Gadelha, presidente do Sindcarnaúba (Sindicato das Indústrias Refinadoras de Cera de Carnaúba do Estado do Ceará), que reúne nove empresas que fazem o refino do produto.
Ele estima que até fevereiro de 2026, o volume de vendas deve estar normalizado.
Os Estados Unidos são os maiores compradores, com 25% do total. Apesar das tentativas, a porcentagem perdida não encontrou novo mercado. Em parte, porque outros países tentaram usar o excesso de oferta como tentativa de fazer o preço baixar. O valor do pó varia de acordo com a pureza. Quanto mais a cera está no centro da palha, maior a pureza. Neste caso, o preço do quilo varia entre R$ 20 e R$ 25. A mais distante, menos nobre, custa entre R$ 10 e R$ 15.
O Ceará concentra o maior número de indústrias de refino, mas Piauí e Rio Grande do Norte também estão entre os principais produtores.
“Estamos falando de diminuição de renda de famílias em períodos em que não há agricultura de subsistência. A maior fatia vai para os EUA e se trata de uma commodity. A carnaúba também tem importância ambiental. Ela evita o assoreamento dos rios e ajuda a que outras espécies possam procriar. É uma cadeia que precisa de apoio”, afirma Daniel Fernandes.
A carnaúba se adaptou às condições da caatinga. As folhas recobertas de cera fazem com que a planta perca menos água, porque forma-se uma camada impermeável. Cada uma é retirada e seca ao sol ou por meio de secador solar, dentro de uma estufa. A cera é retirada, transformada em pó e vendida para o refino.
É preciso destreza para tirar as palhas mais próximas ao núcleo da árvore. Se este for cortado, a planta morre.
Os extrativistas não chegaram a sentir o peso das tarifas porque a indústria continou a comprar o produto. Mas este modelo, caso as taxas continuassem, as vendas se tornariam insustentáveis.
Um dos trabalhos de organizações como a Associação Caatinga tem sido organizar a mão de obra para que não seja necessária a figura do atravessador, que fica com a maior parte dos lucros da venda para as indústrias. Sem ele, produtores como os do Assentamento Aragão podem obter cerca de R$ 4 mil por mês entre agosto e dezembro.
A tarifa chegou também no momento em que a indústria se preocupava com o surgimento da “unha do diabo”. O apelido foi dado a uma planta invasora, originária de Madagascar, em que a vagem da semente se assemelha a uma unha.
“Ela tem matado carnaúbas no Nordeste brasileiro. Cobre toda a carnaúba que, sem fazer a fotossíntese, morre. É com o extrativismo, o trabalho manual, que o controle desse invasor tem sido feito”, completa o diretor da Associação Caatinga.
Para quem está na raiz dessa cadeia, trata-se de uma atividade familiar que atravessa décadas. Francisco diz que já fez de tudo na produção.
“É tradição. A minha família toda trabalha com isso”, afirma.
Em seguida, ele se corrige.
“Meus filhos não estão mais. Eles saíram para emprego de carteira assinada. Mas isso é difícil, não é? Quem não consegue fica aqui. Todo ano é assim e tem de continuar.”
[ad_2]
Fonte: Folha de São Paulo


Deixe um comentário