Quando crianças, acreditávamos que existia “o melhor brinquedo do mundo”. Bastava ver o que colega tinha ou o novo lançamento na TV para ter certeza de qual escolher. Só depois percebemos que o brinquedo perfeito nunca existiu: cada criança tem seu momento, seu gosto e sua necessidade. Curiosamente, quando viramos adultos muitos se comportam como crianças escolhendo brinquedos quando decidem investir.
Frequentemente recebo perguntas como: “Michael, qual o melhor fundo? Qual a melhor previdência? Qual a melhor renda fixa?”. A expectativa é sempre a mesma: encontrar um produto universal, com características únicas e superiores, que sirva para qualquer pessoa. Às vezes me sinto como o pai que resiste ao brinquedo da televisão quando um cliente me pergunta se deve investir no ativo “da vez”. Muitos procuram a resposta como quem busca aquele “brinquedo perfeito” da infância —e se frustram quando descobrem que ele não existe.
Como ensinava Aristóteles, o bem de cada coisa está no fim que ela deve cumprir. No mundo financeiro, o erro nasce justamente quando se ignora o fim. Há quem queira o maior retorno possível, quando na verdade precisa de tranquilidade. Outros buscam liquidez imediata, mas escolhem produtos com carência. Uns preferem estabilidade; outros toleram oscilações desde que o horizonte seja longo.
O exemplo mais simples está na renda fixa. Um CDB pagando 115% do CDI, com prazo de cinco anos, pode parecer irresistível. Mas ele é melhor do que um que paga 100% do CDI com liquidez diária? Depende. Se o investidor precisa ter acesso ao dinheiro a qualquer momento, o de 100% pode ser superior. Se ele já concentra muito patrimônio na mesma instituição e não deseja depender do FGC, a escolha também muda. O retorno não é absoluto: ele só faz sentido dentro de uma vida financeira concreta.
O mesmo vale para escolhas mais sofisticadas. Conheço investidores que se encantam com um multimercado porque “rendeu muito no passado”, mas que entram em pânico quando ele cai 3% em um mês. Para esse investidor, o fundo não era bom nem ruim —apenas inadequado ao seu perfil. É como entregar um quebra-cabeça complexo a quem só queria brincar de carrinho: não há defeito no brinquedo, apenas desalinhamento de expectativas.
Essa lógica é tão relevante que está prevista na própria regulamentação do mercado. A CVM determina que cada recomendação considere o perfil, os objetivos e a tolerância a riscos do investidor. É o conceito de adequação, base da boa prática financeira.
Se isso já acontece com um simples CDB, imagine quando falamos de fundos de previdência com regras específicas, produtos de crédito com riscos distintos ou aplicações estruturadas com diferentes horizontes. A distância entre o “melhor” e o “adequado” se amplia, e a chance de frustração cresce junto.
Por isso, quando alguém me pergunta “qual é o melhor?”, a resposta sincera quase sempre é: depende. Depende da vida, do prazo, da reserva de emergência, do objetivo, da tolerância ao risco e do incômodo emocional que cada oscilação pode gerar. Investir não é sobre encontrar o produto perfeito, mas sobre escolher o produto certo para o momento certo e como ele se encaixa no agregado da carteira.
Da próxima vez que você se pegar procurando o “melhor”, talvez valha inverter a pergunta: “O que é melhor para mim, agora considerando meus objetivos e minha carteira?”. Essa simples mudança costuma gerar decisões mais inteligentes, mais tranquilas e, muitas vezes, mais rentáveis.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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